Difícil era não notar a presença daquela mineirinha e de seu sotaque peculiar e único na sala de aula. Nina era expansiva, alegre e contagiava todos ao seu redor com seu lindo sorriso.
Ela não era nada tímida, muito menos cheia de frescuras. Era amiga de todos, desde o mais convencido a riquinho à faxineira ou vendedor de bugigangas na rua.
Por ironia do destino ou apenas fatalidade, um dia um desconhecido marcou a vida e mudou o comportamento de Nina.
A jovem que era feliz e contagiava todos com a sua alegria, agora se entregava para uma inimiga invisível, e que só ela poderia derrotar, a depressão.
Tudo aconteceu em uma noite que Nina voltava da casa de seu namorado. Era tarde e não havia quase ninguém na rua, exceto ela e o infeliz que tirou dela a vontade de viver.
Ele estava de roupas velhas, parecia ser jovem, mas com um ar de castigado pelo tempo ou por seus hábitos, e empurrava uma bicicleta. Nina percebeu sua presença na rua vazia e tentou mudar o caminho que faria até chegar em casa. Só o que ela conseguia ouvir naquele instante era o pulsar acelerado do seu coração e o barulho que a bicicleta velha fazia com o estalar de suas raias já enferrujadas.
Nina foi sentindo o rapaz se aproximar. Várias coisas se passavam em sua cabeça. Quanto mais rápido ela andava, mas desespero e dúvidas tomavam conta dela. Até que ele não deu mais espaço para ela e a segurou pelo braço. Nina quase desmaiou. Bem baixinho ele disse a ela para não gritar ou esboçar qualquer tipo de reação e mandou que ela o seguisse e obedecesse a suas ordens.
Ela pensou que ele iria matá-la. De repente, uma viatura da polícia passou próximo aos dois. Nina até pensou em correr até os policiais ou dar algum tipo de sinal para que eles a ajudassem, mas antes que ela pudesse reagir, ele a ameaçou. Disse que se ela tentasse alguma coisa, ele a mataria ali mesmo.
Nina obedeceu e o acompanhou até uma praçinha próxima a sua casa. Apenas alguns metros de casa e, mesmo assim, sozinha naquela terrível situação.
O rapaz não teve piedade nenhuma. Rasgou as roupas de Nina e a possuiu a força. A cada gemido de dor ele a espancava. Nina teve que aguentar calada e fazer tudo que ele pedia.
O tempo que ela ficou com ele parecia uma eternidade. Depois que ele fez tudo que quis, ele a chutou e a deixou ali, no meio daquela praça, nua, ferida, violentada e a chutou. Ironicamente ele ainda perguntou se ela havia gostado, como ela não respondeu ele a socou até que respondesse o que ele queria ouvir.
O desconhecido não levou nada mais dela, só a sua vontade de viver e sua felicidade.
Ainda sem forças para se levantar por causa dos ferimentos, Nina conseguiu tatear o chão até encontrar o seu celular. Como não sabia onde o estuprador estava, ligou para o seu namorado e deixou a chamada no viva voz.
O namorado dela ficou cheio de culpa pelo que havia acontecido. Já no hospital ele tentava entrar em contato com a família dela, enquanto isso, Nina estava na sala de cirurgia para fazer uma reconstituição facial e de suas partes íntimas.
Antes era o medo do que poderia acontecer a ela, agora o batalhão de exames e remédios que poderiam evitar que ela não contraísse algum tipo de doença, ou mesmo, uma gravidez indesejada.
Os dias seguintes não foram fáceis. Mesmo com toda a ajuda profissional e apoio dos amigos e familiares era difícil não se lembrar de tudo que aconteceu naquela noite.
A vontade dela era a de se afastar de todos os homens que se aproximassem dela. Nas ruas surgia o pânico. Qualquer um na multidão poderia ser aquele delinquente. O som da voz dele surgia e desaparecia com o vento. Tudo girava e ficava confuso. Ela se sentia desprotegida e vulnerável a qualquer aproximação.
Muito aos poucos Nina foi conseguindo superar o atentado que sofrera. O sol para ela foi aos poucos voltando a brilhar. E o que ajudou em sua recuperação foi o seu envolvimento com outras mulheres que também passaram pelo mesmo que ela. A cada reunião era um pouco da antiga Nina que renascia e voltava ao normal.
Hoje em dia ela ainda tem pesadelos. Mas não se entrega à tristeza como fazia antes.
O que para ela um dia foi motivo de vergonha, agora se tornou um motivo para ajudar outras vítimas e lutar contra esse tipo de homens que usam de força e violência para satisfazer suas vontades doentias e perversas.
Nina faz parte de um grupo de apoio que ajuda pessoas que sofreram violência sexual. No seu trabalho, ela participa de palestras e leva a sua história a outras tantas “Ninas”, que assim como ela, também passaram por uma depressão profunda e que hoje buscam resgatar a felicidade e a vontade de viver.
*texto baseado em fatos reais. Nomes usados são fictícios, para não expor os envolvidos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Você leu meu texto? Então deixe seu comentário sincero sobre o que achou.