Só o que se ouviu naquele instante foram um grito de dor e um pedido de socorro. Por distração ou destino, o sapato de José ficou enroscado na máquina que triturava o bagaço da cana e sem que ele pudesse reagir ficou prensado.
A dor real talvez não tenha sido sentida no momento em que seus dedos e depois seu pé começaram a ser esmagados e arrancados até que alguém desligou a máquina.
Será que era um pesadelo, alucinação ou aquela tragédia realmente estava acontecendo? O sangue já se espalhava pelo chão e os pedaços triturados de José se misturavam ao bagaço de cana amontoado.
O desespero de todos que presenciaram o triste fato foi imenso. O que fazer nessa situação? Como conduzir? Esperar o resgate ou tirar logo o que ainda restava da perna das engrenagens cruéis?
O telefone já não parava mais. Tanto por causa de parentes que ligavam, aflitos para saber notícias, como também para o pedido de socorro que demorava a chegar.
No hospital a correria continuou. José chegou e já foi encaminhado para o centro cirúrgico. Sua perna precisou ser amputada na altura do joelho. Seu corpo já muito fraco quase não respondia mais. Faltava sangue, faltava a perna, faltava força para continuar a viver. A única coisa que restava era a esperança de que tudo não passasse de um pesadelo.
Horas depois, já quase voltando da anestesia, a confirmação de que tudo era realidade foi um choque. E as perguntas começaram a surgir, uma atrás da outra, sem espaço de tempo para pensar.
Por que comigo? E agora o que vou fazer sem minha perna? Para José sua vida tinha acabado.
O tempo foi passando e José foi se readaptando a sua nova realidade. A habilidade com as mãos, antes utilizadas para o trabalho com a terra, agora servia para conduzir o par de muletas que o amparava e o possibilitava se locomover.
Depois da cicatrização chegou o momento do implante da perna mecânica. Exames e mais exames, viagens e mais viagens até a modelagem do aparelho ficar pronta para ser usada.
Um novo recomeço. Um reaprender a andar com uma perna de material totalmente estranho, frio e cheio de recordações. No começo as dores dos pinos, da vaidade, do constrangimento e da tristeza.
Dia após dia tudo, ou quase tudo, foi voltando ao normal. Já não exercia mais a função e o trabalho de antes, no entanto, as atividades mais leves realizava com muita vontade. O choque, o susto e a dor já começavam a deixar de assombrar aquelas lembranças e começava, então, a buscar forças para superar tudo que havia acontecido. A força da família nesse período foi essencial para a recuperação de José.
O período de lamentações foi gradativamente dando espaço ao conformismo. Mudar o que aconteceu já não era possível, mas dava para começar a pensar em voltar a viver normalmente, mesmo com algumas limitações por causa da prótese que agora fazia parte do seu corpo.
Um dia, menos de seis meses depois do ocorrido, José teve a oportunidade de participar de uma competição esportiva com modalidade para pessoas portadoras de deficiências físicas e necessidades especiais.
Lá, José presenciou a realidade de pessoas com deficiências bem mais graves do que a dele, mas que mesmo assim não ficavam se queixando disto ou daquilo. Eram felizes e se esforçavam para mostrar que aquela deficiência não era motivo suficiente para por fim as suas atividades e que poderiam sim manter uma vida normal, mesmo limitadas em alguns momentos.
José estava no meio de pessoas com os mesmos problemas, dificuldades e experiências que ele. Pôde então percebe que ele não era aquela pessoa “bichada” com ele mesmo dizia. Era um vencedor, não pelas medalhas que conseguiu, mas pelo fato de não ter se dado por vencido, por não ficar pensando que a vida dele tinha acabado só por causa do que lhe aconteceu.
Quantos “Josés” não existem por aí à procura de uma situação que os façam resgatar a vontade de viver?
Se você já passou ou passa por algo parecido, não desanime nunca. Tudo tem um motivo para acontecer. Se você pensa que com você foi pior, olhe ao seu redor e aprenda com alguém que já passou pelo mesmo e não deixou de viver e nem de sorrir.
Tente superar e recomece de onde você parou. Com limitações ou não, você pode e consegue chegar longe. Acredite, você pode!
*texto baseado em fatos reais. Nomes usados são fictícios, para não expor os envolvidos.
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