sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A despedida

Os olhos não se mexiam e se fixavam em apenas uma direção. Lá estava ele apenas olhando para ela. Sentado, meio que encolhido na imensidão da gelada cadeira da sala que jazia sua esposa. Recordando talvez tudo que viveram juntos em mais de 50 anos de casamento ou se desculpando de não tê-la dito que a amava pela última vez antes de ela partir.
Não havia mais espaço para recordações tristes ou motivos para discussão. Só o que lhe vinha à cabeça eram os bons momentos que viveram juntos.
Ora uma lágrima solitária escorria pelo rosto dele, ora uma coçadinha sem jeito na testa, já marcada pelo tempo, pelos mais de 70 anos de vida, traduziam todo o sentimento daquele diálogo silencioso.
Os últimos 40 dias do casal talvez tenham sido os mais intensos. A descoberta da doença e a expectativa de que a cura seria apenas questão de tempo deu lugar para orações palavras de incentivo. Muitas dores e outras complicações deram rumos diferentes e o juramento, feito no dia do casamento, se cumpriu. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe, e os separou.
Ainda de volta ao fixo olhar, do então viúvo, sentimentos eram revelados e a reprise da história do casal se passava. O primeiro contato, ainda tímido pela rigidez e bons costumes da época. O início do namoro com os pais sentados juntos ao sofá e mais tarde o casamento, a festa e o primeiro filho, dos oito nascidos do casal.
A hora passava rápido e o momento da despedida final foi se aproximando. Junto aos filhos, ao redor da esposa, o último carinho no rosto frio e sem expressão despertou a vontade de chorar e de dizer tudo que o apertava no peito. As palavras tentaram sair, mas foram sucumbidas pelos soluços de tristeza.
Só o que restou naquele momento foi o abraço de conforto daqueles que também estavam sofrendo.
De volta em sua casa, depois de uma noite inteira se despedindo, ele se senta no sofá e se imagina como será a partir de agora. Com quem conversar e dividir os bons e os maus momentos. Com quem relembrar do tempo da juventude e compartilhar olhares e gestos de carinho.
Os olhos cansados se rendem e ele adormece. De repente, em um sonho bom o reencontro e a esperança de que nada tivesse acontecido. 

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