Criança adora fazer bagunça e se
divertir inventando historinhas para assustar os coleguinhas mais medrosos. Quando
pequeno, confesso que fui muito sapeca e aproveitei bastante dos meus
amiguinhos mais bobinhos. Mas um dia, a minha arte acabou por me deixar mais
amedrontado que eles.
Em uma noite, das muitas que ficava com
minha mãe na cozinha enquanto ela dava aulas de pintura em tecido, eu convidei
as alunas dela, que também eram minhas amigas, para brincar daquele famoso jogo
de perguntas invocando os mortos e utilizando um compasso.
As meninas toparam e eu combinei com uma
amiga de deixar as duas outras, que eram irmãs, com medo. Nós armamos de
inventar uma história e colocamos o plano assustador em prática.
Pegamos uma folha de papel e fizemos um
círculo com as letras do alfabeto. Colocamos o compasso no meio e começamos a
nossa sessão chama espíritos rezando um Pai Nosso. Não demorou nada e o
compasso já começou a se mexer, claro que quem o mexia era eu. Minha amiga e eu
começamos a fazer as perguntas e as irmãs se tremiam de medo com as respostas
de nossa alma penada que participava da brincadeira.
Jogamos por uma meia hora e depois
resolvemos parar porque já era tarde e tínhamos aula no outro dia pela manhã.
Todo mundo foi embora e eu fui para a
cama. Detalhe, só fui para a cama, mas não consegui dormir, não antes de ter me
arrependido de mexer com o que eu não deveria ter mexido.
De repente, do nada, um gato, ou algo
parecido, começou a fazer barulho e não parava mais de miar bem de baixo da
janela do meu quarto. O mais estranho é que sempre tivemos cachorros em casa e
cachorros odeiam gatos, então, como aquele gato ainda estava ali e os cachorros
não o espantavam de lá?
Fiz o que todo filho com medo faz, fui
até minha mãe. Contei a história para ela e ela me pôs mais medo ainda. Disse que
não deveria ter brincado daquilo, me falou que era aquele espírito imaginário
da brincadeira que tava lá na janela e me disse para rezar para que ele fosse
embora. Fazer o quê, né? Rezei. E não é que deu certo! O barulho parou e eu
consegui dormir.
No outro dia fui até a casa da minha
amiga, comparsa na brincadeira, contei o que havia acontecido e decidimos ir ao
cemitério para ver se encontrávamos o túmulo que havíamos inventado. Para nossa
surpresa não tinha sido invenção nenhuma. O túmulo existia. Era igualzinho ao
que tínhamos descrito na brincadeira e o pior, o nome, data e cor batiam com as
respostas. E aí, o que fazer naquela hora? Adivinha? Corremos e fomos para fora
do cemitério.
Depois de todo esse sufoco decidimos
nunca mais por medo em ninguém. Tá certo que vez ou outra eu ainda prego as
minhas peçinhas em alguém, no entanto, depois de crescido, já não possuo a
mesma imaginação fértil que ouve barulho do lado de fora da casa e fica
imaginando coisas, nem a ingenuidade de acreditar que realmente tinha sido
verdade aquela incrível coincidência.